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Quando uma norma injusta ameaça a tradição: um novo olhar sobre as cotas para a pesca da tainha artesanal nas praias catarinenses

Há mais de 200 anos, nos dias e noites frias do inverno, a nossa gente corre para a beira do mar quando alguém grita “olha a tainha!”. O arrasto de praia não é só pesca — é herança açoriana, é avô ensinando neto, é vila inteira puxando a rede junto, é patrimônio cultural reconhecido por lei no nosso Estado.

Agora, uma portaria do governo federal decidiu, sem a anuência de quem realmente vive a pesca artesanal, impor uma cota que só vale para Santa Catarina. Nenhum outro estado do litoral brasileiro tem esse limite no arrasto de praia. Só nós. Neste 07 de junho, em meio a celebrações do Divino Espírito Santo em várias comunidades pesqueiras, ao atingir 90% da cota, 23 dias antes da safra acabar, recebemos a notícia de Brasília que estamos proibidos de pescar.

Sim, eu poderia discorrer sobre as milhares de famílias catarinenses que não terão essa renda. Mas essa não é simplesmente uma questão econômica.

Ao chegar na praia de 4 Ilhas nesse fim de tarde de domingo, uma fenda se abriu em meu peito.

Meus amigos e parentes, de todas as idades, olhavam-me dirigindo a mim pedidos de ajuda acompanhados de um medo indecifrável, de um desespero que eu jamais presenciei, nem nas noites de águas mais gélidas, nem nas puxadas em meio as mais fortes e densas rebentações.

A pesca artesanal da tainha nunca foi sobre dinheiro, embora seja extremamente relevante para muitas famílias. Ela é a nossa história viva, é o nosso sangue correndo nas veias, é uma das únicas atividades que nos leva para o colo dos nossos pais, dos nossos avós. Ela é a promessa que fizemos quando eles partiram, e a que pediremos que nossos filhos e filhas nos façam na nossa despedida também.

Ao longo dos séculos, ano após ano, a pesca da tainha se desenha exatamente igual como era praticada pelos nossos antepassados. Aqui, na praia, a canoa de um pau só, embalada pelos seus remos, extensão dos braços dos nossos pescadores, deita a rede no mar com a destreza de um maestro. Uma coragem inebriante toma conta das almas dos nossos homens, cobrindo-os do frio e da dor.

A magia se completa quando a rede se aproxima da praia, e os convidados chegam para o mais democrático baile de gala das areias salgadas. Todas as mãos são bem-vindas, estranhas, amigas, curiosas, apaixonadas… Não é preciso um chamado para ser parte da nossa história. Basta querer estar lá. E seguir a direção dos mestres do mar a cada puxada, pelo seu exemplo.

O exercício da vigia, que precede o lance, é a mais nobre lição de humildade e resiliência. Por dois meses inteiros, do primeiro ao último instante, 24 horas, olhares atentos se revezam desafiando a força dos ventos, aguardando o sopro de Deus a conduzir o cardume para a baía. Safras fartas são tão raras quanto as esponjas do mar do Arvoredo, e alternam-se em períodos médios de 10 anos. Quando as águas aquecem logo, as tainhas não nos querem, e seguem seu trilho em mar aberto, deixando-nos apenas a imagem do seu balé distante. Próximas o suficiente para que as desejemos. Longe o bastante para que não possamos recebê-las em nossas redes. Ainda assim, com muito ou pouco peixe, os pescadores e seus ranchos estão lá, ano após ano, cumprindo a sua promessa. Honrando o seu legado. Com amor, gratidão e fé.

A tainha cura feridas. É a época em que nos reencontramos, nos abraçamos, fazemos as pazes, novos amigos, e nos sentimos especiais. É a hora em que a sabedoria da comunidade tradicional se sobrepõe às pressões indesejadas de um novo mundo que se apresenta, por vezes, tão indiferente e cruel.

A tainha é o oposto de tudo isso. Ela é generosa. Não há quem puxe a rede sem levar o seu quinhão. Rico ou pobre. Forte ou fraco. Novo ou velho. Criança ou adulto. Homem, menino, menina, mulher. Ela não tem cor, sexo, idade. Ela é o todo, formada por cada um de nós.

Estabelecer uma cota para uma atividade cujo acesso depende exclusivamente de movimentos naturais não controlados pelo homem é estúpido. Perverso. Vergonhoso. Do lugar que estou, ocupando uma representação no parlamento estadual, não posso admitir que tal norma se esconda por detrás do conceito de proteção ambiental, e simplesmente permanecer em silêncio. O pescador artesanal, este que vive na praia, é ambientalista por condição. Ele prefere as limitações naturais as possibilidades de captura industrial, ciente de que pode ou não ser agraciado — porque o arrasto de praia é seletivo, coletivo, primário e ancestral. Com todo o respeito aos técnicos que propuseram essa aberração, é preciso dizer que cotas para esse tipo de pesca só tem uma definição passível de ser admitida: discriminação. E discriminação exclusiva contra o pescador catarinense.

O sangue quente da neta de pescador ferve em mim como um vulcão em erupção. Sinto o cheiro do mar agora, escrevendo esse texto, diante do meu computador. Vejo-me criança, ladeada dos meus, ensaiando as primeiras braçadas nas pontas da rede, agarrada na saia da minha mãe. Eu sou essa menina da praia, emprestada para uma função cujo propósito é apenas servir. É aqui, com a minha gente, que me reconheço.

Preciso confessar que também tenho medo. Tenho medo de não ser capaz de fazer ecoar o pavor que paira sobre os ombros dos meus amigos pescadores, da minha gente. Tenho medo de que nos roubem o direito sagrado de habitarmos a nossa terra, de cuidarmos dela como aprendemos ao longo de gerações. Tenho medo que nos moldem a ponto de deixar nosso futuro oco, de secar a nossa identidade, a nossa origem.

Mas também tenho enorme esperança. Porque há muito mais pessoas boas do que ruins por aí, dispostas a ajudar a corrigir injustiças. E o nosso pedido de ajuda é dirigido a todos: pescadores ou não, catarinenses, de todos os rincões do Brasil. Porque, quando se fecham as portas, sempre haverá uma grande e poderosa janela a se abrir pelas mãos de Deus, Pai de todos nós.

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